terça-feira, 18 de setembro de 2012

Compota de Marmelo

Meus amigos e estimados seguidores, a ausência não significa afastamento. De novo venho à conversa.
Esatou a preparar uma compota do meu receituário de Mimos da Terra que quero partilhar convosco.
Brevemente voltarei com mais notícias.
Um abraço Palmira


COMPOTA DE MARMELO
           

Ingredientes
Marmelo
1kg
Açúcar
1kg
Água
½ lt
              
         
     
Confeção:
·       Lavam-se os marmelos, descascam-se, cortam-se em quartos, retiram-se as sementes e o endocarpo (parte interna a que estão agregadas as sementes) e mergulham-se imediatamente em água com limão ou vinagre para não oxidarem.
·       Retiram-se da água acidulada e cozem-se  em água  limpa, deixando-os um pouco duros.
·       Retiram-se os marmelos da água, escorrem-se e deixam-se arrefecer.
·       À água de os cozer  junta-se o açúcar,  na proporção de ½ litro de água para 1kg de açúcar, e  deixa-se fazer ponto de pérola.
·       Depois dos marmelos arrefecidos, cortam-se aos bocadinhos, juntam-se ao açúcar em ponto e deixa-se ferver até fazer ponto de estrada.
·       Esta compota deve ficar com uma calda grossa e transparente. Se ela começar a secar antes de atingir o ponto, vai-se  deitando pequenas quantidades de água preferencialmente da que  ficou  de cozer os marmelos, e continuando a mexer,  até obter o ponto de estrada.                  
Quadro dos valores nutritivos
Alimentos
Quant.
V.E.
Prot.
Gord.
H.C.
F.A.
g
kcal
g
g
g
g
Marmelo
1000
390
3
2
93
60
Açúcar
1000
3910
0
993
0
0
Água
500
-
-
-
-
-
Total
2500
4300
3
995
93
60
Nutrientes por 100g ≈
229
0
53
5
3
Rendimento da receita ≈ 75% = 1875g





quarta-feira, 14 de março de 2012

CACHAFRITO DE BORREGO





Ingredientes para 6 doses
Borrego
1kg
Alho
3 dentes
Cebola
150g
Banha
50g
Margarina
50g
Azeite
1dl
Vinho branco
1,5 dl
Massa de pimento
1 colher de sopa
Malagueta
1 vagem
Louro
1 folha
Água e sal
q.b.


Confeccção:
·         Limpa-se o borrego completamente de gorduras,  se for perna , retirar a bola de sebo  interna, corta-se em pedaços e escalda-se com água a ferver.
·         Prepara-se uma marinada com o vinho branco,  o alho  bem esmagado com o sal e uma folha de louro, põe-se a carne nesta marinada  e deixa-se  de um dia para o outro, ou no mínimo 8 horas.
·         Passado esse tempo, juntam-se as gorduras( azeite, banha e  margarina) numa frigideira funda ou num tacho e  fritam-se os pedaços de carne  até ficarem  dourados.
·         À  gordura  que ficou da fritura, junta-se  uma cebola pequena picada e deixa-se alourar ligeiramente, junta-se   a marinada, a massa de pimento, ou colorau em pó, se for em pó apenas uma colher de chá e  um pouco de malagueta,  deixa-se  levantar fervura, acrescenta-se mais vinho ou  água, se necessário e deixa-se ferver em lume baixo até a carne cozer bem no interior e apurar o molho.  Finalmente rectificam-se os temperos  de sal e picante, retira-se do lume e serve-se de seguida acompanhado com o que se quiser.
·         Batatas  cozidas ou pão (torrado, frito ou natural),  se o molho for abundante , se o molho ficar mais reduzido  que entrem as batatas fritas. As ervilhas, próprias da época, e também o arroz. Com qualquer deles, uma salada de alface  e agriões, torna-se  quase indispensável.
Nutrientes por dose 
V. E.
Prot.
Gord.
H.C.
F.A.
kcal
g
g
g
g
414
25
35
2
0,4


                                                                      


GASTRONOMIA DA PÁSCOA




Páscoa,  na língua hebraica  pessach, significa passagem e  representa para os judeus  o início da sua libertação marcada pela travessia do Mar Vermelho.
Para os cristãos a Páscoa representa  a ressurreição de Cristo, logo também a passagem à libertação.
Sendo a religião cristã e a judaica derivadas  do mesmo tronco comum, compreende-se que ambas tenham o cordeiro como símbolo de libertação e façam do seu sacrifício igualmente um acto religioso.
A gastronomia de um povo tem sempre a ver com algo de mais do que o puro acto de comer para se  nutrir, ou para dar satisfação  às papilas gustativas.
Mesmo não sendo, na maioria dos casos, o consumo de carne de borrego pela Páscoa, um acto religioso, ele não deixa de estar associado a princípios de arreigamento religiosos, sobretudo judaico, seguido pelos cristãos. 
Em regiões de Portugal, onde as comunidades judaicas tiveram mais influência, ainda hoje se pratica com ritualidade religiosa do sacrifício do cordeiro pascal.
Temo-las,  por exemplo, em Castelo Vide no Alto Alentejo, que se tornou, por isso mesmo, um ponto de referência turística nesta quadra, independentemente do credo  religioso. Foi lá que fomos encontrar um característico prato de borrego, o cachafrito.
Na gastronomia a designação de cordeiro deu lugar ao  borrego, ou cabrito. Na verdade é o ovino, ou caprino jovem da Primavera que se  tornou em Portugal e não só, uma referência gastronómica da quadra pascal.
O borrego aparece cozinhado das mais variadas maneiras  prevalecendo o assado no forno, o guisado, o ensopado, também em sopa, em açorda e em caldeirada.
O cachafrito  só mesmo em Castelo de Vide o encontramos.
     Também o coelho é  outro  animal associado à Páscoa não tendo já a ver com a simbologia  religiosa do cordeiro, mas com a da  fertilidade. É uma tradição  advinda dos países do norte da Europa, que se tem vindo a estender  para sul, todavia a sua implantação deve-se mais à facilidade de criação deste animal e daí ser mais consumido nas zonas rurais, sobretudo por famílias mais modestas com impossibilidade de ter cordeiro à mesa. Nas famílias mais abastadas é o borrego, sendo o coelho  deixado para guisar com ervilhas no domingo de Pascoela.
 Outra, tradição são os ovos da Páscoa, que datam da antiguidade  e simbolizam  o nascimento e a vida. Esta tradição chega até nós proveniente dos países do norte da Europa, tal como os coelhos, faz sentido na medida em que é na Primavera os ovos são mais abundantes. Outra razão terá a ver  a indústria de doçaria, sobretudo a de chocolate, que criou  uma apelativa oferta  dos ovos de chocolate.
Como doçaria mais ou menos tradicional, temos em primeiro lugar o folar por todo o país, e que  nesta região ( Torres Vedras, de usos e costumes saloios) se distingue pelo característico sabor da erva doce.
 Além do folar, temos outros  bolos de massa lêveda próprios da quadra pascal como, a coroa  e a trança da Páscoa  e o bolo de caracóis; de massa areada, entre outros,  temos os bolinhos secos de amêndoa .  E como sobremesa,  o arroz doce em primeiro lugar, e mais requintadamente os papos de anjo e o toucinho do céu.
Porém são  as amêndoas cobertas que  fazem as honras da época,  sendo   muito comum ouvir - se chamar  amêndoas  a qualquer presente dado por ocasião da Páscoa, e até no sentido irónico  a algum acontecimento menos bom ocorrido por ocasião desta quadra.


quarta-feira, 7 de março de 2012

BATATA COMO PRATO E BATATA COMO ACOMPANHAMENTO




·         O que antigamente era considerado o prato principal ou, “o comer” como ainda se ouve dizer, é hoje  tomado como acompanhamento.
·         Quanto ao prato, esse era o “conduto” e também por vezes, o segundo, principalmente quando era  melhorado e comido, não sobre o pão, mas  no prato.
·         Recorda-se, por exemplo, a expressão: - O comer d’hoje tem segundo! o que quer dizer que é melhorado, ou seja, se for uma bifana no pão é conduto,  se for uma bifana no prato é segundo. Outra expressão que se ouve: - Vive que nem um fidalgo, até tem sopa e segundo.
·         Os “comeres” do povo, que a civilização veio designar por acompanhamentos  eram constituídos principalmente por, cereais, onde entra o pão em primeiro lugar, leguminosas, principalmente feijão, grão e chícharos e só mais tarde, já no século XVIII e mais no  princípio do XIX entra então a batata para se vir a impor a partir do século XX.
·         As  hortaliças, assim como outros vegetais, eram  usadas nas sopas, que também se chamavam os comeres. A esses comeres de então, chamamos nós hoje acompanhamentos.
·         A carne ou peixe é que eram, ao tempo, o  acompanhamento, também chamados de segundo ou conduto.
·         As saladas, fossem cruas ou cozidas, não faziam parte da alimentação e só recentemente passaram a entrar no hábito alimentar. A hortaliça entrava cozida na alimentação, acompanhada então  de carne ou de peixe, mas não como saladas.

·         A batata, tubérculo rico em hidratos de carbono e em vitaminas, a inclinar-se tanto para um grupo como para outro, constitui  hoje um dos alimentos básicos, com uma grande variedade  de cozinhados,  que a levam  a todas as mesas, das mais pobres, às mais ricas e a todas as idades. Como negar hoje as batatas fritas à juventude? Pena é que como vimos acima a fritura, principalmente a industrial lhe aumente tanto as calorias, cujo excesso, constituem um problema alimentar. E, não somente pelas calorias como pela toxidade da fritura a altas temperaturas.

·         Para quem não dispense a batata frita, mesmo existindo tantas maneiras de a cozinhar, vamos frita-la no forno, sim no forno! Talvez seja novidade ou talvez não?  Seja como for a receita aqui vai.

BATATA FRITA NO FORNO

·         Descascam-se as batatas, partem-se aos palitos, como para fritar no óleo.
·    Põe-se em água e sal durante cerca de meia hora, liga-se o forno a temperatura alta e unta-se ligeiramente um tabuleiro com azeite ou óleo, pode sobrepor-se ao tabuleiro untado um papel vegetal, também ele ligeiramente untado. 
·   Retiram-se as batatas da água, secam-se num pano, envolvem-se ligeiramente em azeite ou óleo (preferivelmente azeite), deitam-se no tabuleiro, leva-se ao forno previamente aquecido e  baixa-se  um pouco a temperatura.
·        Decorridos cerca de 10 minutos mexem-se as batatas com uma espátula e mantêm-se durante cerca de mais 10 minutos, até estarem passadas e tostadinhas.

           Nutrientes por  100g ≈ 112 kcalorias, 2,5g de prot., 2,5g de gord., 19,2g de hid. carb. ,1,6g de fib. Alimentares.    
               





SOUFFLÉ DE BATATA
                                                                                 
Ingredientes:
Batatas                         500g  
 Manteiga                      50g                                       
Leite                             2dl
Claras                           2 (80g)
Sal fino e pimenta          q.b.
Confecção:
·         Passam-se as batatas pelo passe vitte ( também se pode fazer flocos de batata para puré), derrete-se a manteiga, aquece-se o leite e juntam-se às batatas desfeitas, junta-se o sal e a pimenta e mistura-se bem.
·         Batem-se as claras em castelo juntam-se e mexe-se levemente.
·         Unta-se um tabuleiro fundo com margarina, põe-se dentro o preparado e vai ao forno a cozer até estar levemente dourado.
                                                                Receita de,  O Mestre Cozinheiro, Laura Santos, 1959.




     SOUFLLÉ DE BATATA COM QUEIJO
                                                                      
Ingredientes:
Batatas                         500g  
Manteiga                       30g                           
Leite                             2dl                            
Ovos                             4 (240g)
Cebolinho                      50g
Queijo ralado                 75g                 
Sal fino e picante            q.b.
Confecção:                                                  
·         Cozem-se as batatas, desfazem-se no passador como para puré (também se pode usar batata em flocos), junta-se o leite, a manteiga e as gemas e bate-se até o puré ficar  cremoso, junta-se o cebolinho picado, o  picante ( pimenta ou de preferência malagueta, pode adicionar-se também um pouquinho de nós moscada) e o  queijo, reservando cerca de 1 colher de sopa deste para polvilhar.
·         Batem-se as claras em castelo e envolvem-se suavemente no puré.
·         Deita-se o preparado  numa forma alta untada com margarina, polvilha-se com o queijo reservado  e leva-se ao forno a temperatura de 180 a 200º, durante 20 a 30 minutos.
·         Quando estiver crescido e corado, retira-se do forno e serve-se imediatamente.

                                                                            Receita de , Receitas à Moda Antiga, Selecções  do  Reader’s Digest, 1997. 
Nota:
§  Este soufflé,  porque é composto de proteína do queijo e dos ovos, pode só por si, servir de prato,  acompanhado de uma salada verde.
§  Se quisermos um repasto mais completo, também  pode servir de  acompanhamento  para  carne ou  peixe.

BATATAS DE TODAS AS MANEIRAS






BATATAS COZIDAS

A batata pode ser cozida com casca ou sem casca, mergulhada  em água  ou a vapor. Simplesmente cozida e temperada com azeite, ou temperada  com qualquer outro molho de   carne ou peixe. Guisada, salteada, assada ou frita, ela é dos acompanhamentos mais versáteis e mais usado.

BATATAS SALTEADAS

As batatas salteadas são apenas batatas cozidas e posteriormente passadas pela fritura. Para esse efeito são preferíveis as batatas pequeninas ou então são partidas em bocados de tamanho aproximado de batatas pequenas.
As batatas salteadas fazem uma boa junção de acompanhamento de assados ou estufados.

 BATATAS ASSADAS A MURRO

Está hoje muito vulgarizada a batata assada a murro, é interessante a expressão de assar a batata com  murro, mas o murro só surge depois da batata assada, para a  rebentar afim de tomar o sabor do tempero.
O processo de as assar hoje é o seguinte:
Lavando-as bem e retirando-lhes eventuais grelos ou outros detritos, secam-se num pano e põem-se no forno dentro de num tabuleiro a assar com a casca.
Quando estiverem assadas, retiram-se do forno, dá-se-lhes então o tal murro e deita-se-lhes o sal por cima, alho picado  e muito azeite ou outro molho, mas é mesmo com o azeite que elas são boas. 
Porém nem sempre assim foi, as batatas a que se veio a chamar batatas a murro, também se chamavam batatas assadas na cinza e foi assim que elas nasceram.

 BATATAS ASSADAS COM CARNE OU PEIXE

Escolhem-se batatas pequenas, descascam-se  e coloque-as no tabuleiro dos assados (carne ou peixe), as batatas assam com o molho do assado.

 BATATAS FRITAS

As batatas fritas são o processo mais moderno, é  um processo prático, rápido e saboroso, apenas com um contra, o do consumo excessivo de gordura e toxidade da mesma principalmente quando atinge temperaturas muito altas.
Por estes dois contrários para a higiene alimentar, as batatas fritas deveriam ser comidas só em dias de festa, como antigamente.
Se consultarmos a Tabela da Composição de Alimentos vemos que relativamente  ao  valor energético (VE) e atendendo  apenas a ele, a batata apresenta os seguintes valores:   Crua 89 kcalorias,    Cozida 85,     Frita caseira 225,   Frita industrial 526.

 PURÉ DE BATATA

O puré é feito apenas com batata cozida e leite. É um processo  mais elaborado de cozinhar a batata, que faz dela  um  acompanhamento  requintado, seja para carne ou peixe  e mais saudável que as batatas fritas.
Para fazer o puré, descascam-se as batatas, cozem-se em água e sal  e passam-se pelo passe vitte,  ou por um esmagador de batata que é muito mais prático e rápido.
Aquece-se  o leite (cerca de ½ l de leite por 1kg de batatas, variante conforme a batata seja mais ou menos farinhenta), deita-se aos poucos na batata esmagada e mexe-se energicamente até o puré ficar em boa consistência e aveludado.
Não necessita de manteiga, embora haja quem não a dispense,  quanto a tempero, para além do sal, apenas um bocadinho pouco de noz moscada, para quem goste, dá-lhe um bom sabor.
                                                                                                        
            

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

A BATATA E A SUA HISTÓRIA



·         Batata, o nome botânico da batata,  por ventura  o tubérculo  mais popular do mundo, é solanum tuberosum,  não sabemos como, nem de onde proveio, admite-se que tenham sido os espanhóis  a divulgar o seu cultivo e que tenha  chegado à Europa em 1534.
·         Em 1557 entra no léxico português  no tratado dos descobrimentos  por Augusto Gaivão. Sabe-se apenas que todas as variedades de batata  descendem de uma única, originária do Perú.
·         O seu nome, batata, segundo o dicionarista Honaiss deriva do falar dos nativos do Haiti, o Taino e advém do castelhano,«patata».
·         A batata entrou na Europa em 1534 como planta  ornamental  e só a partir de  1570 se começou a vulgarizar como planta alimentar.
·         Porque era cultivada em hortas e pousios  estava por isso isenta   do imposto de dízimo e de outros direitos feudais, o que fez com que  os camponeses a adoptassem rapidamente, tendo o  seu cultivo em Portugal início em meados do século XVI.
·         Uma das primeiras referências à batata , se não a primeira, foi feita em 1545 pelo cronista espanhol  Agustín Zarate  Cosat, na  sua História del descubrimiento y conquista  de la provincia  de Perú. Las  viandas que em aquelas terras comem los índios som maíz cocido y tostado em lugar de pan, e la carne de venado es cocinada a la manera de mojama, existe pescado seco y unas raices de diversos géneros que Elles llaman yucas, camotes y papas.
·         Sabemos portanto (op. cit) que  o conhecimento do tubérculo  que viria a revolucionar  a história da alimentação do povo europeu, data pelo menos  da segunda metade do século XVI e que os navegadores  espanhóis e portugueses o terão provado  no local de origem, mas com isto não se quer dizer  que a população europeia, particularmente a portuguesa  e espanhola  a tenha cultivado de imediato  para seu uso, tanto mais que os médicos da época  tinham dela uma péssima opinião e consideravam-na, entre outras desvirtuosidades; desenxabida, flatulenta, indigesta, debilitante e malsã, adequada apenas ao sustento de  animais (sic). 
·         Durante o final do século XVI e no século XVII a batata não se encontra citada nos livros de receitas da época, embora alguns  escritores  espanhóis  dessa mesma época a  tenham em textos.
·         Foi já no século XVIII que o francês Antoine  Augustin  Parmentier  teria convencido Luís XVI de que  essa batata poderia  solucionar os  problemas  alimentares  do povo francês.
·         Foi então que  para divulgação e promoção da batata,  esta fez parte de uma  refeição  servida em Versailles,  a 24  de Agosto de 1785, com toda a corte reunida, para  apreciação da mesma como alimento  humano.
·          A partir daí a batata passou  a vulgarizar-se como alimento humano em França e a aumentar-se  o seu consumo,  passando de alimento malquisto e vilipendiado,  a ter lugar na mesa  dos nobres e burgueses europeus.  
·         Segundo José Hermano Saraiva, Diogo de Sousa, que terá escrito «As cortes de Parnaso», entre 1620 e 1630, seria conhecedor da batata porque a sita na sua poesia. Também Bento Pereira, no seu Thesouro da Língua Portuguesa, 1647, refere a batata. Porém, até aos finais do século XVII e grande parte do seguinte  a batata  continuou a ter uma baixa reputação na Europa, não passando de um alimento pouco conceituado pelas classes altas, utilizada apenas para alimento de animais, de escravos e  de pobres , conceito a que Portugal não fugia.
·         Para confirmação o que acaba de ser dito,  atendemos ao primeiro livro de cozinha  publicado em 1680, Arte de Cozinhar de Domingos Rodrigues, no qual a batata não aparece  mencionada, tal como acontece com outras obras dos seus colegas espanhóis.
·         A batata só aparece como receita de culinária, para gente bem instalada na vida em 1715 e 1729 registada por Francisco Borges Henriques, mesmo assim dizendo que : « o que dá pelo nome de batatada não passa de um puré grosseiro adicionado com o dobro do peso de açúcar em ponto e amêndoa pisada e, se for de nabos, passa a chamar-se nabada», contudo fica-nos a dúvida se a batata referida seria a  Solanum tuberosum (nome  botânico da batata comum, de que temos vindo a falar) ou a Ipomoea batatas ( que é a batata doce), conforme aparece  muitas vezes confundida uma com a outra.
·         A batata comum (Solanum tuberosum)  no  início do conhecimento da sua existência   não foi apreciada como alimento humano pelas classes altas, que apenas a usavam como curiosidade gastronómica,  o que se prolongou durante o século XVIII.


·         Lucas Rigaud, um dos cozinheiros de quem  presentemente se fala  muito, por ter sido cozinheiro da corte  portuguesa  nessa época, na sua obra  Cozinheiro Moderno ou Nova Arte de Cozinhar  de 1780, dedica  apenas  duas linhas  à batata  em que  diz: « As batatas depois de cozidas em agoa, e pelladas,  comem-se com molho de manteiga, e mostarda».
·         Só a partir do livro de Paulo Plantier - O Cozinheiro dos Cozinheiros, editado pela primeira vez em 1870, a batata  entra nos tratados de culinária, sendo nesta obra apresentadas 18 maneiras de a cozinhar.
·          À segunda  edição desta obra, veio Ramalho Hortigão (1836-1915), com o prestígio da sua escrita,  dar um grande impulso  à credibilidade da batata  ao  adicionar  à referida  obra uma receita da sua autoria, onde ensina  frigir as batatas   em manteiga fresca vinda de Sintra, a constipa-las  no parapeito de uma janela  e a voltar a submete-las  ao inferno da gordura fervente para que empolem e se transformem no pitéu do qual exalta  a qualidade e o sabor.
·         Seis anos mais tarde, João da Mata  na sua obra «Arte de Cozinha», lançada em Lisboa em 1876, inclui as batatas nas mais variadas receitas, vindo  a torna-las indispensáveis nas variedades de cozinhados em que actualmente se representam.


·         Assim entrou a batata  no século XX como elemento respeitado, não parando a sua escalada nos mais diversos processos que hoje conhecemos: cozida, guisada, estufada , assada, recheada em puré e de toda a maneira  imaginável.
·         A batata demorou a impor-se, mas vencida a desdita do seu desconhecimento, já não é dispensável seja nos processos mais simples, como nos mais sofisticados.

Extracto do  Texto Original – A HERANÇA INCA- de JPL Reis, in Alimentação Humana, S.P.C.N.A.
       ( Sociedade Portuguesa de Ciências da Nutrição e Alimentação),  vol. 14, nº3, 20, coligido  por
                                                                                                                              Palmira Cipriano Lopes.