quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

RECEITA DO BOLO REI

Ingredientes:                                               
            Farinha                       1 kg+ 50g p/a tender
            Fermento pad.             50g                 
Leite                           2,5dl   
Açúcar areado            200g   
Açúcar em pó             50g 
Ovos                          6+ 1 p/a pintar  
Marg . p/ untar            25g
Aguardente*              1 dl
Sumo de laranja         1 dl     
Frutas crist.                250g
Nozes                        80g                 
Amêndoas                  80g     
Sal                             1 pitada            
Confecção:
·         Reservam-se algumas frutas para decorar o bolo e cortam-se  as restantes em pedacinhos miúdos e envolvem-se em ½ dl da  aguardente misturada com o sumo de laranja. Desfaz-se  o fermento com o leite  tépido e reserva-se.
·         Deita-se num alguidar a farinha, o açúcar e os ovos e o  começa-se a amassar, deitando pequenas quantidades de água, até a massa estar bem ligada, devendo para isso, ser bem batida.
·         Deixa-se a massa descansar durante 15 a 20 minutos e aos poucos junta-se o fermento desfeito no leite e a mistura do sumo de laranja com a aguarde, continuando a amassar até a massa  começar a empolar e a despegar-se das mãos, sinal de que  está pronta. Nessa altura enrola-se ajeitada ao alguidar, cobre-se   com um pano, abafa-se  e deixa-se  levedar  a temperatura tépida e estável, durante cerca de 1 a 2 horas, até ela atingir cerca do dobro do volume.
·         Quando  a massa estiver lêveda  juntam-se as frutas envolvendo-as suavemente e deixa-se  repousar mais 20 a 30 minutos. Seguidamente retira-se do alguidar e divide-se    em três partes  (a receita dá para três bolos médios).
·         Coloca-se   cada pedaço da massa num tabuleiro barrado com margarina e polvilhado com farinha, ou forrado com papel vegetal, ligeiramente untado.
·         Forma-se  uma bola e abre-se um  buraco largo ao centro e enrola-se  o bolo no feitio de uma coroa.
·         Decora-se   com as frutas inteiras que se reservaram, pincela-se com ovo inteiro batido com uma pitada de sal e sobrepõe-se-lhe montinhos de açúcar que se humedeceu ligeiramente.
·         Leva-se  a cozer de preferência  em forno de lenha durante cerca de meia hora. Se cozer-mos  noutro forno  ele deve estar previamente aquecido e a temperatura alta inicialmente, devendo ser reduzida a partir do meio da cozedura.
·         Quando retirar-mos o bolo do forno pincela-se  ainda quente, com uma  geleia  de marmelo ou maçã, ou calda de açúcar, qualquer delas, muito leve.

Valores Nutritivos
por 100g 
V. E.
Prot.
Gord.
H.C.
F.A.
kcal
g
g
g
g
321
7
8
51
3

                                                                             
                              
               

*A aguardente perde o álcool pela evaporação, por isso não é contabilizada nos valores nutritivos
Obs. Embora o Bolo Rei não seja originalmente português, pela sua popularidade, já criou direitos de cidadania portuguesa.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

BOLO REI

Eu ignorante me confesso, pois que até há bem pouco tempo pensava que o bolo rei era uma tradição portuguesa.
Ter-me-ia desiludido se ele não tivesse conquistado direitos de cidadania, pelo tempo que já vive em Portugal. Pois é, o bolo rei é de origem francesa, mas nós portugueses já não o dispensamos no nosso Natal.

O Peru de Natal


O peru (Meleagris gallopavo) foi e ainda é uma ave selvagem, encontrada em algumas coutadas do Leste da América do Norte, que anteriormente à sua colonização  (1606) já era domesticada pelos astecas havia centenas de anos. Os espanhóis, ou os portugueses, segundo o espanhol Luís Nunez, trouxeram-no para a Península Hibérica  no primeiro quartel do século XVI e daqui se disseminou rapidamente  a toda a Europa, onde em cerca de 1580 já era presença habitual em grandes festas senhoriais.
De onde é realmente a origem do peru?  - O mais provável, segundo o autor, é que tenha sido achado no México em 1520, aquando de uma expedição comandada pelo espanhol Hernando Cortés.  Por outro lado,  em Portugal acreditava-se, no século XVI que a sua origem fosse do Peru, devido ao seu nome ter a ver com esse topónimo, exportando-se  daí para Portugal. O peru viajou com os marinheiros portugueses   para a Índia em 1524 com essa denominação,  onde depressa se impôs  nas mesa de grande aparato a par de garças, faisões, cisnes e pavões,  e  ainda hoje lá perdura.
Para ilustração da sua real importância se refere que em 1531, quando o embaixador D. Pedro de Mascarenhas ofereceu ao imperador Carlos V em Bruxelas, um banquete a  comemorar o nascimento do quinto filho de D. João III, foram servidos, numa sala onde  ardia lenha de cana de canela de Ceilão, dezasseis pratos, entre eles perdiz, leitão, peru, faisão, veado, javali, coelho e lebre, copiosamente regados com vinhos portugueses, espanhóis, franceses, italianos, gregos e húngaros, aos quais se seguiram quinze sobremesas variadas, das quais se destacavam marmelos com açúcar, mel de tâmara, pimenta açucarada e espécies aromáticas das Malucas.
Em  1534 Francois Rebelais mencionava-o, como galinha- da- índia (coq d’Inde, Dindon) entre as iguarias do seu Gargantu, e em 1549, o cabido de Notre Dame oferece a Catarina de Médicis um banquete  onde esta foi presenteada com a visão faustosa e a possibilidade de degustar, entre outras iguarias, sete perus adultos e setenta perus pequenos, factos que confirmam da importância e celeridade que o peru conquistou  nos grandes repastos franceses.
Em Inglaterra, onde também foi introduzido  na categoria  de bens de alto gabarito, deram-lhe o nome de Turkey, talvez por ser comercializado por mercadores da Turquia.
            Em Itália, Bartolomeu Scappi incluía-o  em 1570, no seu receituário de cozinha, mostrando que o seu conhecimento sobre a ave  já viria de trás.
Em Portugal há notícia do seu serviço em 1536 durante um banquete por D. João III. Em 1647, cem anos mais tarde, aparece uma nova notícia sobre o já célebre peru servido num banquete que D. Luísa de Gusmão, mulher de D. João IV, ofereceu às suas damas da corte.
Com certeza que nos cem anos volvidos muitos perus passaram pelos nobres e faustosas mesas. É no entanto curioso  notar que a infanta D. Maria, nascida em 1538, que nos deixou  o mais antigo registo de culinária portuguesa, e que tinha seguramente  conhecimento da degustação e preparação de peru, não tenha registado qualquer receita  da tão apreciada ave.
Em 1679 Bento Coelho  ( um célebre pintor do qual podemos encontrar expostas várias obras e entre elas a do criador dos animais com o peru ao seu  lado direito.
Em 1680 no livro de Domingos Rodrigues, cozinheiro de D. PedroII, o  primeiro livro de cozinha  impresso  em Portugal, que veio a ter duradouro êxito, o mestre  ensina a preparar o peru de vinte e uma maneiras, sendo os principais processos o assado  recheado ou sem recheio, cozido, guisado  e  picado. O numero de receitas que lhe dedica demonstra o apreço que havia pela  ave  no meio da nobreza e grande burguesia daquela época. No receituário de Francisco Borges Henriques datado de 1715 (citado por Drumond Braga) é sugerido o peru com arroz se o animal for velho. A partir desta data  o peru  desaparece  quase por completo das sugestões culinárias dos mestres de cozinha(cic).
Cem anos mais tarde do primeiro livro de cozinha português surge o cozinheiro moderno de Lucas Rigaud, cozinheiro de D. Maria I com a primeira edição em 1780, onde o autor subscreve  31 receitas de peru.
            Em 1801 Carl Israel Ruders, sacerdote Sueco, que viveu em Portugal de 1789 a 1802  descreve na sua correspondência de Lisboa para,  a invasão desta  cidade por grandes bandos de perus, trazidos pelos criadores  com a finalidade de serem vendidos na quadra natalícia . A descrição de Ruders permite-nos concluir que,  embora exista a ideia de que foi Charles Dickeus, escritor que viveu entre 1812 e 1870, quem contribuiu para que o peru se tornasse o prato  emblemático do dia de Natal, a sua  presença durante  a quadra festiva natalícia era anterior ao nascimento do escritor e manteve-se generalizada até aos nossos dias. Inicialmente o peru era refeição  festiva do clero, da nobreza e da alta burguesia, vindo a impor-se pouco a pouco, pelo menos uma vez por ano na mesa dos médios e pequenos burgueses.
No último paragrafo do texto, o autor que nos serve de referência descreve  com  tamanha expressão  a sorte  última  da tão elevada ave que nos apraz  transcreve-lo para que o quadro não perca a ilustração original, então o autor começa:
-Hoje, montado em série, vendido escahoado, mole e inteiro ou partido em bifes do peito, “alerões” (como gostava Lucas Rigaud), coxões e de muitas outras desvairadas maneiras, encolheu o monco, empalideceu as carúnculas, deixou de enfonar  o papo para soprar com força, esqueceu como se arma o rabo, perdeu o encanto e, embora se consuma cada vez mais, presta-se a ser substituíd , no trono natalício e no lugar de honra  de outras refeições melhoradas, por viandas mais distintas que lhos usurparão sem refrega  e lhe acabarão com um reinado de quase quinhentos anos. Contudo, a sua longa e fantástica viagem através do tempo não terminou, e como atrás de tempo, tempo vem, nada nos diz que  no futuro não possa readquirir novamente o prestígio  que começou a perder quando passaram a cria-lo em massa e o obrigaram a expor-se nu ou esfrangalhado, nas prateleiras frias das catedrais de consumo alimentar.

Lima Reis, in Alimentação Humana, S.P.C.N.A. (Sociedade Portuguesa de Ciências da Nutrição e Alimentação ), vol 14 ,nº 2, Porto, 2008.
Pesquisa e composição de Palmira Cipriano Lopes