Meus amigos!
Brevemente voltaremos a este assunto.
quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
terça-feira, 24 de janeiro de 2012
GASTRONOMIA DO CARNAVAL
As tradições do Carnaval transpõem, em muito, a restrita região saloia de que temos vindo a falar, nas nossas aulas de gastronomia.
As reminiscências carnavalescas perdem-se no tempo, num estudo de António Salvado, para a História das Festas[1], o autor faz referência a outros autores que chegam a remontar essas celebrações ao paleolítico.
Em todo o mundo e em todas as civilizações, o carnaval, embora com outras designações e em épocas diferentes, é no essencial uma época de exaltação. Ele foi inicialmente uma presença popular e continua a ser. Segundo Martine Grimber ( séc. XVI) citado por J. A. Salvado. op. cit., o carnaval tem muitas semelhanças com as Festas dos Loucos[2], mas estas, diz o mesmo autor, eram festas de cariz religioso, enquanto nas festas de carnaval não são encontrados quaisquer indícios com essas características, não obstante todas as religiões as terem tentado sacralizar.
Carnaval versus Entrudo
Prosseguindo no mesmo autor, a primeira expressão de entrudo encontra-se na Chancelaria de D. Afonso III (séc. XIII). É aí que pela primeira vez aparece a designação de entrudo com sentido de carnaval, usada apenas na Península Ibérica, o que por isso, refere o mesmo autor, nos sugere um conceito histórico específico, que terá a ver com as lutas entre Cristãos e Muçulmanos.
Se essas lutas tiverem alguma coisa a ver com o carnaval, ou entrudo como era designado o carnaval na Península Ibérica, como parece que tiveram, então temos o carnaval com um passado de implicância religiosa, sendo essa ideia reforçada pela gastronomia da quadra festiva do carnaval.
A expressão muito usada de que no entrudo vale tudo, equivalente à de que no carnaval nada parece mal, sabendo que a palavra vale significa para os espanhóis o mesmo que está bem para os portugueses.
O carnaval, pelo que ainda hoje é vivido e por aquilo que sobre ele alguns estudiosos nos informam, foi sempre uma sátira, uma sátira ao outro; ao vizinho, ao pobre, ao rico, ao político, ao religioso, ao preto, ao branco, a tudo!
No que respeita a gastronomia vamos encontrar a sátira expressa nas iguarias da época, a carne de porco e as filhós. A carne de porco, muito apreciada pelas cristãos e proibida aos muçulmanos, é cozinhada de todas as maneiras; carne de porco frita, carne cozida, carne de porco assada e de todas as maneiras, também porque coincidia esta época com a das matanças de porco.
Quanto às filhós de carnaval, que são as filhós estendidas, também chamadas orelhas de abade, é o escárnio dos muçulmanos contra os cristão. O sagrado alimento da sua religião, o pão, passa a dar lugar a um pedaço de massa frita, como no carnaval nada parece mal, então cada um de chacoteia o outro com o que de mais sagrado, tirando partido gastronómico.
O uso das filhós pelo carnaval, designadamente em Lisboa, só aparece em notícia a partir do século XVIII, segundo Ernesto Veiga de Oliveira, in J. A. Salvado, op cit, tendo vindo a cair em desuso, ainda assim, a sua difusão europeia é indício de um consumo muito mais antigo, que remete para a época de confronto entre muçulmanos e cristãos na Península Ibérica (sécs. XI a XIII), de onde terá derivado o seu uso.
Como boa figuração da sátira carnavalesca temos, exactamente o carnaval de Torres Vedras, onde o saloio de barrete e garrafão fazendo honras ao deus Baco, tem sido repetidas vezes figura de proa.
A literatura sobre o carnaval abunda, existindo diversas teorias sobre este tema, mas como não é exactamente o tema carnaval ou entrudo que estamos a tratar e apenas o de gastronomia desta quadra, não nos vamos alongar mais.
De qualquer modo sobre estas duas designações dedicamos também alguma atenção, porque elas também nos conduzem à gastronomia.
Figura publicitária do carnaval de Torres Vedras
Figura publicitária do carnaval de Torres Vedras
O que ultimamente se vê mais defendido sobre o étimo de carnaval é carne vale que, embora carecendo de mais explicações, nos conduz à ideia de que no carnaval tudo vale, até surriar cada um quanto aos seus credos e códigos de valores, abundantemente expressos na gastronomia. Curioso é constatar-se que essas provocações não geravam conflito e assim com nasciam com o entrudo, eram enterradas com ele.
Sobre a origem do vocábulo entrudo, segundo os etimologistas, ele derivará do latim introitus o que significa entrada, que pode ser entendida como invasão, assalto de carnaval, uma e outra são usadas em Portugal para designar o mesmo, passando a de entrudo, cujas referências se encontram a partir do século XIII, a dar lugar à de carnaval, encontrada a partir do século XVI, e com a designação de entrudo, voltamos à gastronomia.
Quando se diz que no entrudo vale tudo, ou come-se tudo, encontrando-se em lugar de destaque essas duas iguarias, carne de porco e filhós, ambas, tal como nos conta a literatura histórica referente ao assunto, contêm um sentido de escárnio inter-civilizacional.
Pela mesma literatura e pela nossa própria constatação, julgamos poder dar razão ao epíteto dado ao carnaval de Torres Vedras, de que ele é o mais português ( mais tradicional) de Portugal. Salvo alguns redutos, referidos por Venerando de Matos,[3] com mais tradições populares, como sejam: Os Caretos de Miranda do Douro; a Dança das Cruzes de Cabanas do Viriato, ou o carnaval da Nazaré; é o carnaval de Torres Vedras, como festejo de maior expansão, que ainda mantém a espontaneidade e a presença da tradição. Sendo justo lembrar Loures e outros concelhos vizinhos que também continuam a manter tradições revestidas de sentimentos populares, satirizando e denunciando situações, que de outra maneira não o conseguiriam fazer.
No final dos festejos de carnaval, com o enterro do entrudo, tradição bem popular, na qual, entre outros significados podemos encontrar o de enterrar o mal referente à estação do Inverno, que traz consigo o espectro da morte, mas também o de crepir a folia que se acabou.
Ao enterro do entrudo, ou carnaval também os populares chamam enterro do bacalhau, temos mais uma vez a gastronomia nesta manifestação popular. O bacalhau, símbolo de alguma fartura, simboliza aqui, também a satisfação e a folia vividas, que vão acabar, vão acabar porque se aproxima um período de jejum e penitência, conforme os preceitos religiosos da igreja católica. Esse período vai durar até à Páscoa, quadra em que a gastronomia vai ser outra
Obs: texto de apoio às aulas de gastronomia da AUTITV
Obs: texto de apoio às aulas de gastronomia da AUTITV
PCL
[1] Obra resultante das jornadas de História, Edição da Câmara Municipal de Torres Vedras, com a Coordenação de
Guardado da Silva.
[2] A Festa dos Loucos insere-se num contexto religioso de festas cíclicas que, tal como os festejos de carnaval, são um
misto de mito de animismo, religião e vida jogados com as forças da natureza.
[3] história das festas, op cit
quarta-feira, 14 de dezembro de 2011
RECEITA DO BOLO REI
Farinha 1 kg + 50g p/a tender
Leite 2,5dl
Açúcar areado 200g
Açúcar em pó 50g
Ovos 6+ 1 p/a pintar
Marg . p/ untar 25g
Aguardente* 1 dl
Sumo de laranja 1 dl
Frutas crist. 250g
Nozes 80g
Amêndoas 80g
Sal 1 pitada
Confecção:
· Reservam-se algumas frutas para decorar o bolo e cortam-se as restantes em pedacinhos miúdos e envolvem-se em ½ dl da aguardente misturada com o sumo de laranja. Desfaz-se o fermento com o leite tépido e reserva-se.
· Deita-se num alguidar a farinha, o açúcar e os ovos e o começa-se a amassar, deitando pequenas quantidades de água, até a massa estar bem ligada, devendo para isso, ser bem batida.
· Deixa-se a massa descansar durante 15 a 20 minutos e aos poucos junta-se o fermento desfeito no leite e a mistura do sumo de laranja com a aguarde, continuando a amassar até a massa começar a empolar e a despegar-se das mãos, sinal de que está pronta. Nessa altura enrola-se ajeitada ao alguidar, cobre-se com um pano, abafa-se e deixa-se levedar a temperatura tépida e estável, durante cerca de 1 a 2 horas, até ela atingir cerca do dobro do volume.
· Quando a massa estiver lêveda juntam-se as frutas envolvendo-as suavemente e deixa-se repousar mais 20 a 30 minutos. Seguidamente retira-se do alguidar e divide-se em três partes (a receita dá para três bolos médios).
· Coloca-se cada pedaço da massa num tabuleiro barrado com margarina e polvilhado com farinha, ou forrado com papel vegetal, ligeiramente untado.
· Forma-se uma bola e abre-se um buraco largo ao centro e enrola-se o bolo no feitio de uma coroa.
· Decora-se com as frutas inteiras que se reservaram, pincela-se com ovo inteiro batido com uma pitada de sal e sobrepõe-se-lhe montinhos de açúcar que se humedeceu ligeiramente.
· Leva-se a cozer de preferência em forno de lenha durante cerca de meia hora. Se cozer-mos noutro forno ele deve estar previamente aquecido e a temperatura alta inicialmente, devendo ser reduzida a partir do meio da cozedura.
· Quando retirar-mos o bolo do forno pincela-se ainda quente, com uma geleia de marmelo ou maçã, ou calda de açúcar, qualquer delas, muito leve.
Valores Nutritivos
por 100g
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V. E.
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Prot.
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Gord.
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H.C.
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F.A.
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kcal
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g
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g
|
g
|
g
| |
321
|
7
|
8
|
51
|
3
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*A aguardente perde o álcool pela evaporação, por isso não é contabilizada nos valores nutritivos
Obs. Embora o Bolo Rei não seja originalmente português, pela sua popularidade, já criou direitos de cidadania portuguesa.
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